" Amar é um exercício"
Para todos vocês que acham que amar é um estado de graça venho informar, não é, pois amar é um exercício. Chega-se a este mundo a saber amar, acredito que sim, tal como se nasce a saber nadar, mas não é preciso muito para cedo o começarmos a esquecer. Bastam as primeiras rejeições, os pequenos abandonos, aquelas vezes em que o coração se quebrou e os pedacinhos não voltaram a colar igual, todas as pequenas desilusões, as confianças traídas, as expectativas quebradas, e quando damos conta, puff, o coração fechou-se, encostou às boxes, foi para o banco dos suplentes, sentou-se no sofá e está a ver séries.
Mas depois chegam aqueles momentos em que "Amar é que é preciso"! Os momentos em que percebemos que se soubéssemos amar ainda, seriamos tão mais felizes. Porque o amor relaxa e nos dá tranquilidade, porque o amor nos traz bons amigos, relações inteiras, nos faz ter sucesso profissional, falar a nossa verdade, trazer a nossa música cá para fora, ter força, ter coragem para conseguirmos ser mais e melhor, sempre! É nesses momentos em que percebemos que deixámos de amar, de conseguir confiar e acreditar, que vemos todas as coisas que nos escapam das mãos por medo, cobardia ou conforto e então pensamos: "Ah! Se eu conseguisse amar outra vez! "... e ficamos à espera, a olhar para o infinito, como se amor, para onde quer que ele tenha ido, apareça um dia, só por magia, no fundo da rua.
Pois não aparece nem no fim da rua, nem sob a forma de um Homem ou Mulher, promoção profissional, ou viagem à volta do Mundo, porque o amor não foi a lado nenhum, o amor está onde sempre esteve, dentro de nós. Na verdade nunca se perde o amor nem a capacidade de amar, mas perde-se sim o hábito de amar, e como o amor vive dentro e não fora, também se perdem os mapas do caminho para o amor, e se trancam as portas do coração, até a fechadura e as dobradiças ficarem tão perras que custam a abrir sem esforço.
O bom disto tudo é que amar é um exercício, e por isso treina-se, mas tal como qualquer outro exercício só funciona se for posto em prática. Assim, da mesma maneira que ler artigos sobre exercício físico, ver programas de televisão sobre yoga, assistir a jogos de futebol, ter conversas sobre quais as novas modalidades de aulas no ginásio, não fazem absolutamente nada pela nossa massa muscular, falar, ler, ver ,ouvir, pensar sobre o amor, não faz nada pelo estado do nosso coração.
E agora vem aquela verdade que todos sabemos, quanto mais tempo se fica sem fazer exercício mais custa voltar a fazê-lo, porém também sabemos que quanto mais o praticamos, mais fácil nos vai parecendo, e no decorrer dum tempo, deixa de nos parecer exercício e passa só a ser uma rotina do dia a dia.
Neste momento, estão os corajosos a por-me a questão: mas se amar é um exercício, como é que se pratica?
Os outros estão a arranjar desculpas, a dizer que isto é um disparate ou que não estão focados no amor, que não é importante, como Coach já ouvi de tudo. Pois é verdade que o amor não é importante, o amor é antes fundamental, imprescindível! Desde que nascemos que é o amor que nos faz crescer melhor ou pior, por exemplo, o desenvolvimento cognitivo saudável de um recém nascido faz-se através do amor de quem dele cuida, e a falta de amor num bebé, até mesmo a falta de toque, causa danos cerebrais irreparáveis, uns tais "buracos negros", zonas neuronais mortas, nunca desenvolvidas, que se espelham na sua personalidade e capacidade de funcionar no Mundo.
Quem não ama, não se conhece, não cresce, não se desenvolve, e acaba por ir morrendo aos poucos.
Por esta altura já ficou claro que amar não é sinónimo de ter um relacionamento amoroso, convém sublinhar. Ainda que a nossa cultura nos fale essencialmente do amor de mãe/pai e do amor romântico, há infinitas formas de amar ou seja, de exercitar o amor.
Que exercícios são esses? Perguntam ainda os que chegaram até aqui, pois bem, passo a apresentar:
Exercícios para voltar a amar ou encontrar o amor nos nossos corações e nas nossas vidas:
(sem ordem específica)
1 - Perdoar para prosseguir
Perdoar é recordar sem dor ou apego. Há uma série de exercícios específicos para o perdão, dependendo das razões que nos levam a não conseguir perdoar, poderei responder mais especificamente a quem me perguntar.
2- Aceitar para transformar
Aceitar é não questionar as situações tal como sucedem e procurar forma de tirar partido delas, visando sempre que tudo o que nos acontece é para o nosso maior desenvolvimento. Aceitar para transformar não o mesmo que aceitar para conformar ou estagnar.
3- Abrir para expandir
Abrir para dar e abrir para receber. Para algumas pessoas receber custa muito mais do que dar. Existe um certo heroismo em dar e uma tal humildade em receber. Dar e receber podem não ser exercícios nada fáceis e levam algum tempo até que o seu domínio nos leve a um equilíbrio saudável, contudo não há amar sem receber e sem dar.
4- Vulnerabilizar ou Expor para libertar
Este exercício é por certo o cabo da tormentas. Expormo-nos ao outro implica atravessar os nossos medos e dar um passo em frente. Representa acreditar sem ver, confiar sem provas, agir sem certezas, falar sem garantias de retribuição.
Para conseguimos este exercício temos de abdicar do nosso orgulho, da nossa vergonha, do nosso medo de sermos rejeitados, ridicularizados ou feridos novamente.
É aquele momento na história em que nos declaramos ao outro, em que ousamos sentir sem qualquer segurança. Ser vulnerável é estar sem proteções, arriscar a feriada, a morte, o sofrimento, para podermos "impermeabilizar o coração á dor.
Deste exercício resultam grandes avanços ao nível do amor,
uma pessoa que domine a sua vulnerabilidade, domina também a sua criatividade, as suas emoções, a sua sensibilidade e encontra em si um poder imenso: o poder de conquistar tudo e ser livre. Eu diria que é mais ou menos como voltar a habituar os pés a andarem descalços, até se criar uma camada de pele tão resistente que nos permite ir a qualquer lado mas sempre sentido tudo, quase sem dor.
5 -Confiar para criar
Confiar é acreditar sem provas, tudo o resto não é confiar mas antes senso comum. Amor sem confiança não é amor, não nos traz tranquilidade, nem liberdade e cede-nos apenas um falso sentido de controle. Como viver e confiar? Ou melhor como viver sem confiar? Se na vida a única garantia que temos é a morte, de que adianta não confiar? O que é que controlamos melhor por não acreditarmos a não ser perante provas irrefutáveis? Na verdade não se pode viver desconfiado, quem o faz, não vive, sobrevive.
O exercício da confiança é o de dar no mínimo o beneficio da dúvida e largar o controle, é o de fechar os olhos e seguir em frente sem os abrir, é o de relembrar o passado doloroso mas não ser guiado por ele, acreditando, que estando a lição aprendida nada mais há para se repetir.
Confiar permite-nos recriar tudo à nossa volta e contribui para que a nossa vida se transforme de dor em amor.
6 - Ser-se perfeitamente imperfeito
Importante, o exercício de zero tolerância à crítica depreciativa, à exigência desmedida, à análise constante do que poderia ter sido feito melhor, em nós e nos outros. Zero criticismo, aceitação plena das nossos chamadas "falhas". Quem ensina com amor não critica, em vez disso enaltece os sucessos, vê sempre algo de positivo em tudo e reajusta os método de ensino. Neste exercício temos de aprender a ser o nosso próprio mestre e aluno e a aceitarmos que somos perfeitos na nossa imperfeição. Assim, tomamos consciência de que fazemos sempre tudo o que sabemos e podemos, e que a cada dia que passa sabemos e podemos mais e finalmente aceitamos que tudo isto é suficiente e nada mais nos é pedido.
(...)
Há mais exercícios, mas por agora ficam estes.
Se são difíceis? Podem ser, vamos tentar não fazer tudo de uma vez e ir aos poucos, o importante é o progresso.
Bons treinos e muito amor, pois tudo nasce do amor e é nele que tudo termina.
Aceito as vossas questões e terei muito gosto em ouvir as vossas histórias.

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